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Ruínas. Mas dizer que é apenas isso o que se encontra na Aldeia Tekoa Guaviraty Porã, em Santa Maria, é um sintoma da forma como a sociedade e o homem ‘não-índio’ olha e entende a situação indígena brasileira.
Pelo menos no caso dos Mbya-Guarani, que receberam e acolheram a nossa equipe durante as gravações do 1˚ vídeo do projeto Gema.


 

terra onde, desde 2012, está localizada a Aldeia Tekoa Guaviraty Porã servia, no passado, como sede de uma escola técnica agrícola, com ginásio, banheiros, quadra de futebol, refeitório.

Hoje é o lar de 24 famílias Mbya, dispersas ao longo de seus 77 hectares. Ali vivem, plantam, trabalham, confraternizam, entoam suas palavras, escutam os mais velhos. São e vivem como índios, praticam suas tradições, hábitos e língua, mas também não se fecham ao que a sociedade industrial moderna lhes possibilita: carros, televisão, redes sociais, etc. E aí temos um aspecto de extrema importância, pois não necessitam pintar seus corpos e usar cocares de penas para auto-afirmarem a sua identidade indígena. São índios, e ponto.

Chegamos na aldeia próximo às 17h e esperamos até que Vherá Poty, jovem mediador Mbya Guarani, chegasse da cidade juntamente com o Cacique Afonso, onde estavam comprando mantimentos, inclusive para o almoço de confraternização do dia seguinte. Ainda em Porto Alegre, dias antes dessa vivência, já havíamos encontrado Vherá e trocamos esclarecimentos, nós sobre o projeto, ele sobre o modo de vida Mbya Guarani.

Enquanto isso, alguns integrantes de nossa equipe puderam se divertir com as crianças, que no campinho jogavam bola. Uma primeira lição: a grande diversão deles não era fazer gol ou ganhar do adversário – que não existia -, mas sim passar a bola, chutar e dar risada, meninos e meninas, juntos!  Logo em seguida, nosso mediador chegou da cidade e pediu que esperássemos mais um pouco, até que alguém viesse nos buscar. 

No local onde esperávamos e ao nosso redor, uma arquitetura fragilizada e vazia, de cores desbotadas, árvores, dentre elas algumas figueiras, laranjeiras e bergamoteiras, tênis infantis jogados sem pares combinados pelo chão, as luzes intensas da cidade ao horizonte e um ar mais puro. Já tínhamos visto algumas poucas casas, todas elas bem simples, mas nada que anunciasse para nós o todo que acessaríamos em seguida.
 

Quando Vherá nos buscou, fomos apresentados ao Cacique Afonso e convidados para descermos ao importante espaço de convívio que possuem e onde se encontravam as crianças da aldeia, ensaiando e praticando seus cantos e danças. Logo nos encaminharam para que sentássemos ao redor do fogo, onde pudemos aprender com o silêncio.

 

Sentados ao redor do fogo, o qual nos esquentava e também mantinha quente a água do chimarrão, Vherá Poty, Cacique Afonso, Oswaldo Chamorro e os professores Pedro e Diego, além de nós. Entre eles, conversavam em sua própria língua, com grandes intervalos de quietude entre suas falas. Era ali que habitava um dos maiores conhecimentos mbya que poderíamos absorver. Aos poucos, foram nos dando a palavra e ouvidos, para que contássemos um pouco de nossas ideias e para que também os escutássemos enquanto coletivo, assim podendo ampliar nosso entendimento deles e de toda a sua cultura.

 

Um pouco mais ao lado, as crianças da aldeia seguiam cantando, tocando e dançando. Por não ser apenas um momento de entretenimento para elas, tampouco para os que ali estavam, fomos convidados para, em fila, saudá-las, as agradecendo pelas músicas que penetravam nossos ouvidos: Aguyjevete (com mais profunda verdade saúdo)! Findado este importante momento de respeito, todas elas se juntaram à nós em volta do fogo, que esquentava a noite fria que fazia, em um enrosco de pernas e patas dos cachorros que ali também descansavam.

 

Logo em seguida fomos convidados para o jantar, servido na casa de Cacique Afonso. Macarrão e um pão típico mbya, muito gostoso por sinal. Ali, visualizamos e tivemos bem claro algumas das tantas coisas que nos foram faladas enquanto estavamos na fogueira. Para o homem ‘não-índio’, os Mbya Guarani são índios que vivem na miséria, ideia essa absurdamente carregada de preconceito e más interpretações. Acostumados a ver os mbya nos centros de grandes cidades descalços e muitas vezes com roupas já surradas, desbotadas, tratam os índios como mendigos. Aprendemos exatamente o contrário: os mbya não precisam de luxo, não precisam de riquezas. Precisam se sentir bem, estar felizes, conectos uns aos outros, ao seu coletivo.

 

Nos despedimos e combinamos nosso retorno para a manhã seguinte, bem cedo, para poder acompanhar o sol nascendo. Neste primeiro momento não registramos nada, era essencial que antes de qualquer ‘rec’, ouvíssemos o silêncio. Na van rumo ao hotel, nossa respiração se mostrou muito tranquila e confortável, agradecidos pela oportunidade e confiantes em termos escolhido para a nossa primeira gravação, a Aldeia Tekoa Guaviraty Porã.

 

Bem cedo, ainda escuro, chegamos na aldeia. O frio era imenso, gelado. O despertar vagaroso: árvores, bichos, pessoas. Como se todos fossem uma coisa só. Fomos gravando, sol nascendo, pássaros cantando, cachorros procurando fiapos de sol. Enquanto isso, em um cômodo ao lado da casa de Cacique Afonso, um pequeno fogo já aquecia a água do chimarrão e as histórias sobre os sonhos da noite que se passara e o que eles trouxeram, importante momento do dia mbya. 

 

Lá no mesmo fogo que nos esquentou na noite anterior, as crianças da aldeia preparavam a refeição da manhã, café preto e ‘reviro’, um delicioso tipo de paçoca. Quando pronta, fomos até o refeitório, onde fomos servidos com reviro, além de salsichão. Em uma sala ao lado, alguns homens adultos da aldeia já preparavam o almoço, espetando em espetos de bambu o frango que seria assado na churrasqueira. No lado de fora, jogo de peteca. De origem indígena, é uma das tantas diversões que cultivam.

 

Barrigas cheias, demos início a entrevista com Vherá Poty, que foi esclarecedora. Para os Mbya Guarani é bem difícil falar de sua música sem falar de sua espiritualidade, suas presenças físicas, seus trabalhos, sua aldeia, a natureza. E isso é algo que nos tocou e emocionou muito, trazendo para nós um novo sentido do próprio projeto Gema. 

 

A parte instrumental da música mbya é composta por rabeca, chocalhos, tambor (o que eles usavam era um ‘ilú’, tradicional tambor dos terreiros de religiões de matriz africana praticadas no Rio Grande do Sul) e um violão. Essa configuração é uma provável herança das missões jesuíticas, e não possuem uma informação sobre como deveria ser a formação musical anterior à este período. Alguma coisa com um berimbau de boca (os kaingangs ainda utilizam este instrumento, ou um similar), mas para eles isso não faz diferença. Com ou sem instrumentos, sua música tem para eles o mesmo sentido. Se conectam com seus antepassados, com as forças da natureza, com o coletivo, com seus sentimentos. Para quem olha (e escuta), a batida do violão é algo super simples.

Não existem muitos acordes, é muito mais um leve tocar de cordas do que melodias ou harmonias. Mas nem por isso é algo simples, é algo que talvez sem toda a vivência mbya e a espiritualidade inerente a eles, seja impossível reproduzir.

Essa batida, tradicional da música deste povo originário do território formado por Paraguai, Argentina e pelo sul do Brasil, é uma das grandes influências do chamamé, ritmo muito popular e tradicional dessa região, sendo este considerado um dos principais gêneros musicais do gaúcho e do Rio Grande do Sul.

Realizada a entrevista, as crianças da aldeia se organizavam em círculo, enquanto preparávamos câmera e microfones para gravação do musical. Gravar as crianças também não era algo à toa, pois somente os adultos cantam, dançam e tocam apenas em momentos específicos e em lugares sagrados da aldeia, onde não podíamos entrar. 

Quase como mantras, os cantos mbya se repetem e penetram em nossa alma através dos ouvidos e coração. Trazem consigo coisas escritas há muito tempo, histórias, pedidos, preces, acontecimentos e até críticas sociais. Com as explicações de Vherá, mesmo sem entender a língua mbya, conseguimos entender a riqueza deste conteúdo e toda a sua poesia, cheia de vida e sentidos. 

 

Sob um forte calor de quase meio-dia, primeiro foi a vez das crianças. Na sequência, meninas e mulheres fizeram algumas danças circulares. Depois, apenas homens, entre alguns adultos e outros um pouco mais jovens, nos mostraram uma outra dança, cheia de desafios. Um deles, com um toco de madeira em mãos, vai ao centro da roda e ‘intima’ algum outro que está ao redor, e este precisa se atentar para os movimentos deste toco, hora pulando, hora se abaixando. Um misto de ritual e brinquedo, um intenso instante coletivo.

 

Em seguida, fomos nós os intimados! Meio duros, travados. Sem chances para não participar.  Por estarmos ali, imersos, pés no chão ou meias sujando de terra, não temos registros, embora em nossa volta quase todos os mbya ali presentes filmavam e fotografavam com seus celulares. Embora nós fôssemos – ou assim pensávamos – sermos os maiores agradecidos por tudo, ainda fomos presenteados com colares e palavras de imenso carinho.

 

Após o almoço ainda realizamos algumas gravações com Vherá, Cacique Afonso, Neusa – sua esposa – e Irma Ortega, que sentados sob as raízes de uma árvore nos contaram, em mbya, que suas danças e seus cantos são o sentido de suas vidas, e que pela sua divindade foi dado. Aprenderam com seus avós e agora através dele se expressam. Ainda neste momento, Neusa e Irma pediram que registrássemos uma dança que fizeram, em par, e que gostariam que fosse filmada.

A

Dizer que a aldeia é apenas um aglomerado de ruínas ou que são miseráveis, é legitimar o olhar forasteiro, exótico, repleto de preconceitos. Simplificar sua música é ouvir apenas de forma ocidental em essência. São muito maiores do que paredes ou pedaços de tecido. Sua música vai além de acordes. Procurar neles o estereótipo dos índios com cocares de penas e colares é negar que o tempo avança para todos. Como dizem, não são daqui, estão aqui. Enquanto Mbyas Guaranis não precisam disso para ser e se afirmarem como índios. São ricos, independente de riquezas. E assim são felizes.

texto: Lucas Luz

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