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"Apesar dos celulares, carros importados e um horizonte nublado composto por fios e antenas, parecia um tempo/espaço suspenso, como se uma máquina do tempo nos transportasse diretamente séculos atrás, quando apenas o trabalho, a fé e a música do povo alemão estabelecido no Rio Grande do Sul era o que trazia conforto espiritual."

 

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Trabalho, fé e música. Pilares que sustentaram os imigrantes alemães, que do além-mar vieram e se estabeleceram no Brasil. Com muitas dificuldades, sem meios de transporte e ferramentas, foi no folclore, mais precisamente na música, onde encontraram o seu conforto espiritual. Vai ver, deve ser por isso que, hoje, passados quase duzentos anos da chegada dos primeiros imigrantes no Rio Grande do Sul, a Bandinha Típica Alemã Goela Seca quando toca em algum lugar onde tem alguém ‘assim, meio negativo’, faz ‘virar tudo’: o seu lema é alegria!

á para se dizer que as bandinhas alemãs no formato que se popularizou nas regiões de imigração alemã no Brasil, são grupos musicais genuinamente brasileiros. Em uma busca rápida pelo Youtube, é possível ver diversos vídeos de

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bandas tradicionais da Alemanha. Bem como Romeo Mário Braun, dirigente da Goela Seca, nos disse, lá eles são mais sérios. O repertório é outro, as configurações musicais são outras, o figurino é outro. E isso tem, de certa forma, um pouco a ver em como as tradições alemãs aqui foram mantidas e como se ressignificaram em território brasileiro. Como qualquer outro processo cultural, é algo orgânico, e às vezes imperceptível sob o ponto de vista de quem o faz.

Porém encontrar informações mais aprofundadas sobre bandinhas alemãs é uma tarefa difícil. Não encontra-se nada, além de alguns vídeos sem compromisso no próprio Youtube. O fato é que são bandas com um calendário vivo, que animam diversas kerbs e outras festividades pelas regiões nas quais os alemães se estabeleceram no Rio Grande do Sul, como os vales do Caí e do Sinos. Estão radicadas em um gueto, são formações simpáticas e com uma música festiva, mas sem o devido reconhecimento da importância que possuem para com a cultura de nosso estado. Nessas regiões, são vários os programas de rádio dedicados exclusivamente à música das bandinhas, com um público fiel.

 

Arthur de Faria, um dos consultores do projeto Gema, trazia, em suas memórias afetivas de infância, a lembrança de assistir, entusiasmado, uma bandinha tocando no verão em um bar, na praia que frequentava, quando em férias com sua família. Pedrinho Figueiredo, outro dos consultores, confirmou a escassez de materiais de pesquisa sobre as bandas alemãs, pois já havia tentando, anos antes, realizar um trabalho com estes grupos musicais.

 

A Goela Seca se tornou protagonistas do Gema após essas difíceis busca na internet. Alguns vídeos foram acessados e percebemos que era uma banda ativa, com um calendário cheio de datas marcadas e que se fazia presente em redes sociais. Por ali conseguimos o contato. Em poucos dias liguei para Romeo, que desde o início se mostrou extremamente solícito. Como prática, contei sobre o que se tratava o projeto, quem eu e a equipe éramos, os nossos objetivos e que inclusive tínhamos um cachê para o grupo, afinal de contas, estariam direcionando parte do seu tempo para o nosso trabalho. Talvez por não haver tanto interesse em registros de suas músicas e suas tradições, Romeo pensou que eu estava vendendo um serviço, para que pagassem e produzíssemos um vídeo deles.

 

Chegamos na cidade de Feliz em um sábado próximo às 15h. Os ‘Goela Seca’ estavam fazendo fotos para compor o material do cd, que foi lançado agora no mês de setembro (nossos registros foram no mês de maio). Tempos atrás, Feliz havia sido apontada como uma das melhores cidades brasileiras para se viver. De fato, cidade pequena, é organizada, limpa, com uma ótima saúde urbana e pessoas que se conhecem e se respeitam. Primeiro, fotos até uma ponte centenária, toda de ferro e rebitada, onde a foto de capa do cd foi feita. Ao lado, um bar com mais de cem anos. Construção rústica e típica, parada obrigatória para a Goela Seca.

 

Lá dentro, nem o espaço apertado foi impeditivo para a alegria. Na mesa dos clientes, cerveja e jogo de cartas. O casal dono do bar, encontrou até uma brecha para dançar. Ser espontâneo e não ter cachê parece não incomodar a Goela Seca. Tocam com o mesmo carinho e alegria que em todas as outras oportunidades que presenciamos neste final de semana.

 

Por sorte, neste momento conseguimos registrar a presença do Sr. Cacildo Eidt, o fundador da banda no ano de 1978. Perto dos 90 anos, não consegue mais acompanhar a trupe em todas as suas atividades, mas destaca-se quando se faz presente. É ele o responsável por tocar o ‘berimbau do vovô’, instrumento por ele construído e, segundo Romeo, de sua própria criatividade.

O berimbau do vovô não lembra em nada o instrumento usado na capoeira. Trata-se de um pedaço de pau, com arames amarrados, bem esticados, pedaços de latas e guizos, multifuncional. Além da marcação nas cordas, percutidas com baqueta, é também batido no chão, no contratempo do surdo. O mais curioso é o seu aspecto totêmico. Possui uma caricatura do próprio Cacildo esculpida na madeira, em sua extremidade superior. Pedrinho Figueiredo conta já ter visto outra bandinha alemã no Rio Grande do Sul com instrumento semelhante, e diz que na Alemanha e na Áustria, existe um instrumento similar, chamado ‘violino do diabo’.

 

Da Feliz, seguimos para Bom Princípio, onde a Goela Seca se apresentaria em uma festa da cidade, na praça. Por lá, algumas pirâmides de lona constituindo o ambiente, stands com cerveja artesanal, um palco no qual um músico se apresentava e a presença de um público diverso, mas constituído em sua maior parte por jovens. Destes, hipsters, bichos-grilos, funkeiros e metaleiros. Lindo é ver que em uma cidade tão pequena, todas as tribos conseguem viver em harmonia, juntas e misturadas. Mais ainda, é perceber o enorme carinho oferecido por este público, independente dos seus gostos individuais, à Bandinha Goela Seca, respeitada do início ao fim.

 

A música da Goela Seca e, provavelmente, das bandinhas alemãs como um todo, é alegre. O repertório é formado por canções antigas, valsas, marchas, polcas. Ouvidos mais antenados percebem influências do samba e do maxixe. Inevitável! Por mais que sejam descendentes de alemães, nascidos em cidades que, em muito, lembram a Alemanha colonial, são brasileiros, estão ligados ao rádio, à televisão e ao convívio direto com outras culturas.

 

Formada por trompete, trombone, saxofone, surdo, agê e acordeom, é uma banda que se reúne aos finais de semana, para descontração e para a alegria do público. Como afirmam repetidas vezes, ninguém é estudado, ‘não é igual na Alemanha, onde a música é coisa séria’. Entretanto são excelentes instrumentistas. Um deles, o responsável pelo agê, dá todo o suíngue e é o ‘reloginho’ do grupo. Moradores de diferentes localidades da região, são tudo ‘de fora, da colônia’. Tem produtor de leite, produtor de embutidos, marceneiro, pedreiro, motorista da prefeitura. Diferentes de músicos que mesmo sendo profissionais possuem outro tipo de remuneração financeira, não se importam e nem se envergonham em dizer que possuem outras ocupações. Sabem que é assim que mantém sua tradição, não somente por garantirem a permanência da música alemã, mas possuem a consciência de que sempre foi assim: trabalho, fé e música.

O domingo, chuvoso, estava reservado para uma apresentação do grupo em Harmonia, outra cidade da região, também colonizada por alemães. Cidade pequena, enfeitada com bandeiras da Alemanha. Seus moradores conversam entre si não somente em português, mas principalmente em alemão. Parecem manter fielmente as mesmas características de quando os primeiros imigrantes aqui chegaram, quase duzentos anos atrás. Pedrinho nos contou que, neste trabalho que realizou anos atrás e no qual queria a presença de uma bandinha alemã, trouxe para o Brasil uma comitiva de diversos profissionais, políticos e artistas da Alemanha. Para ele contaram que um dos maiores desafios que possuem é mostrar ao mundo uma outra imagem do alemão, mostrando que a Alemanha não está parada no tempo. Meias até o joelho, chapéus de três pontas e suspensórios são coisas do passado, não querem mais assim serem representados.

 

A kerb, evento tradicional festivo e religioso alemão, algo semelhante as quermesses de todo o interior do Brasil, estava sendo realizada em comemoração ao aniversário da Associação Comercial. Nem a forte chuva afastou as pessoas do evento, fosse na missa, fosse no almoço, fosse nas apresentações artísticas. Os ‘Goela Seca’ incansavelmente tocaram em diversos momentos, ora caminhando entre as mesas, ora debaixo da grande tenda montada. Só não tocaram dentro da igreja pois a chuva era um convite para que as pessoas de lá saíssem apressadas, para que debaixo de seus guarda-chuvas ou dentro de seus carros se deslocassem até o local onde as outras atividades aconteceriam.


Apesar dos celulares, carros importados e um horizonte nublado composto por fios e antenas, parecia um tempo/espaço suspenso, como se uma máquina do tempo nos transportasse diretamente séculos atrás, quando apenas o trabalho, a fé e a música do povo alemão estabelecido no Rio Grande do Sul era o que trazia conforto espiritual. Hoje, talvez um pouco mais aliviados de todas as dificuldades, parecem sorrir mais soltos com aquela música, faceiros. E com um enorme respeito pelos músicos, independente de quem sejam, por oportunizarem essa alegria em forma de nota musical.

texto: Lucas Luz

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