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"Mesmo quando se mostra insatisfeito ou contrário a algum outro posicionamento, é respeitoso. Mantém sua calma. Sua alma. Em um mundo cada vez mais intolerante pela diferença, é a síntese da compreensão. Além de um profundo conhecer de sua vida (que não se resume apenas ao seu corpo e intelecto), é um conhecedor das pessoas, da história de seus antepassados e de outros povos."

 

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Rugas, fios brancos de cabelo e uma voz que parece vir de terreiros de outros séculos. Sabedoria, conhecimento e espiritualidade. ‘Não tem problema’ quase como um jargão. Não que a vida tenha sido fácil, muito pelo contrário. O seu tempo é esse, mas também é um outro que vem do passado e que permanece, fica para o futuro. Espalha filhos pelo mundo. Além do que se define nas páginas dos dicionários, ANCESTRALIDADE. Sua fala arrepia, levanta os pêlos dos braços. Antônio Carlos de Xangô, um dos mais antigos e ainda vivo pais-de-santo e tamboreiro de Batuque do Rio Grande do Sul, é sanguíneo, é coração.

sol era de um amarelo manso na manhã de sábado em que nos dirigimos à Vila São Tomé, na cidade de Viamão, região metropolitana de Porto Alegre, para visitar e registrar Antônio Carlos de Xangô. Sua casa, localizada em uma

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espécie de zona rural da cidade, é um espaço de acolhimento. Por fora, a impressão que se tem é de que lá dentro o aperto é constante. Quando se entra, os olhos se perdem na grandeza. Não necessariamente uma grandeza de paredes, salas e quartos, mas grandeza de vida, de histórias e de fé.

As paredes azuis da casa de Antônio Carlos de Xangô, de um desbote que lhe conferem uma tonalidade incrível, foram o pano de fundo para a nossa conversa. Fala de sua infância, de como ainda criança se tornou tamboreiro. Com cinco anos, sua mãe (tamboreira - segundo ele, quando mulheres são tamboreiras, são melhores que homens), lhe ensinou a tocar. Com oito, durante uma obrigação, esta fingiu uma dor de barriga. ‘Foi ao banheiro’ e para o tambor não voltou. Assim, Antônio Carlos precisou assumir o tambor. Deste, nunca mais se distanciou.

 

Desta época, lembra que os toques eram mais lentos, cadenciados. Hoje são mais acelerados. Sugere duas hipóteses, a primeira delas sintoma em várias manifestações musicais tradicionais: a influência das baterias das escolas de samba do carnaval carioca. Em guardas de congados e moçambiques do sudeste brasileiro, nas nações de maracatu de baque virado de Pernambuco e até no candombe uruguaio já ouvimos realtos semelhantes. Um estudo à parte. A outra hipótese, não musical, fala sobre o uso de agrotóxicos na alimentação, levando a crer que estes fazendo as pessoas viverem mais aceleradas.

 

Das várias nuances e sutilezas das diversas religiões de matrizes africanas estabelecidas no Brasil, é profundo conhecedor. Acima de tudo, respeita todas as outras que não a sua. Fala sobre os príncipes africanos que vieram para o Rio Grande do Sul, os primeiros pais de santo, os termos que antes não se usavam e que agoram já são estabelecidos. Nos conta também dos aproveitadores e oportunistas.

 

Perguntado sobre o porque o batuque gaúcho (ainda) não ter sido apropriado como ritmo percussivo pela música popular brasileira, afirma que o batuque conseguiu manter-se preservado. Mas não questiona e não critica o candomblé, por exemplo, de onde se extrai diversas células rítmicas que são utilizadas em trios elétricos, sambas e por baluartes da música brasileira. Não à toa, quando pedimos que cantasse uma música qualquer de seu gosto, a escolhida foi ‘Oração de Mãe Menininha’, já gravada por Dorival Caymmi, Gal Costa e Maria Bethânia.

Pai Antônio Carlos tem filhos-de-santo ‘espalhados’ pelo mundo. Argentina, Uruguai, Inglaterra, Portugal. Em sua casa, onde vive há mais de 40 anos com sua esposa, Mãe Vera de Ossanha, outra importante figura das religiões de matrizes africanas no Brasil, mantém um salão no qual recebe seus filhos e guarda seus protetores. É o Ilê de Ossanha e Xangô, fundado em 1969. Pelo que deu para perceber, seus ‘filhos’ possuem livre acesso, além de ajudarem na manutenção do espaço (não só do sagrado, mas também da parte residencial), como se ali realmente também fosse deles.

Foi neste salão que gravamos a musicalidade do batuque gaúcho. Não sabíamos ao certo como seria, fizemos a entrevista pela manhã e até sairmos para o almoço não havia movimentação alguma. Também havíamos sido informados que alguns espaços reservados não poderiam ser gravados e que, pelo batuque estar sendo conservado e preservado há tempos, não poderíamos gravar durante uma obrigação – e é isso que faz com que não existam registros deste tipo -, mas apenas em um momento, digamos assim, ‘cênico’.

 

Quando regressamos ao Ilê, eram muitos os filhos de Pai Antônio e Mãe Vera que lá estavam presentes para participar da gravação. Quando questionei o ‘milagre da multiplicação’, Antônio Carlos me contou que havia mandado uma mensagem, um chamamento, aos seus filhos via Facebook. Funcionou.

 

Sob os toques de André de Agandjú, tamboreiro e também pai de santo (e dentista por formação acadêmica), a voz ancestral de nosso protagonista (hora chorosa, hora explosiva), os agês e os cantos em uníssono dos presentes, vivenciamos e registramos diferentes músicas, ritmos, toques, convenções e dinâmicas. Alguns destes, mesmos que preservados nos terreiros dos batuques, muito semelhantes com outras nuances musicais afro-brasileiras, algo completamente compreensível se analisarmos os processos culturais do Atlântico Negro e de como os negros eram capturados de diferentes lugares do continente africano e espalhados pelo território brasileiro.

 

Antônio Carlos abriu as portas de sua casa e nos ofereceu suas palavras, seu conhecimento. Nos falou de sua infância, de quando foi engraxate e dormia em bancos de praças, do respeito que o pessoal do MTG tem por ele e sua religião, cantou, deixou escapar lágrima no rosto. Mesmo quando se mostra insatisfeito ou contrário a algum outro posicionamento, é respeitoso. Mantém sua calma. Sua alma. Em um mundo cada vez mais intolerante pela diferença, é a síntese da compreensão. Além de um profundo conhecer de sua vida (que não se resume apenas ao seu corpo e intelecto), é um conhecedor das pessoas, da história de seus antepassados e de outros povos. Quem sabe, até da gente. Por sorte, ainda tivemos a oportunidade de registrá-lo falando em tupi-guarani, uma das tantas línguas índigenas do Brasil. Para ele, toda a nossa gratidão.

texto: Lucas Luz

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