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Não tente dedicar apenas 5 minutos para uma conversa com Mestre Paraquedas, nem espere por respostas objetivas. O papo dele não tem esse negócio de limite de caracteres e nem pretende ser algo em que se diga meias verdades à queima-roupa. Muito mais do que ser entrevistado, quer é contar histórias. Fôssemos deixar ele falando livremente, sem roteiro algum, nos contaria tudo o que gostaríamos ouvir. Sabe da curiosidade do mundo e o que é preciso ser dito. E tem história para contar. Lembra delas nos detalhes, como se tivessem acontecido agora mesmo. Não à toa, tem nos detalhes sua vocação e profissão, é um artista multimídia à frente do seu tempo (e tem tempo isso!). Paraquedas, músico, sambista, artista plástico, pesquisador, compositor, contador de histórias e mestre griô.

omo ele mesmo diz, tem dois nomes e duas idades. Coisas da época em que nasceu, quando registro de nascimento não era obrigatório e quando o preconceito era ainda maior. Nascido Darcy, assim não pôde ser batizado, pois o juiz do

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cartório não autorizou, afinal este era o nome da esposa do então presidente Getúlio Vargas. Com Eugênio como nome registrado em cartório, sabe que se na rua alguém o chama de Darcy, é família; Eugênio alguém que lhe conheceu por esse mundo afora e, Paraquedas, é gente do samba, do carnaval, maloqueiro.

O apelido ‘Paraquedas’ vem da época do exército: foi um dos primeiros paraquedistas. Mas prefere não falar sobre isso. Embora tenha nos contado algumas histórias desta fase, melhor ouví-las com as câmeras desligadas, em seu respeito. Não se considera um escultor, pintor, escritor ou compositor, mas afirma que usa estes recursos para expressar suas ideias. Faz isso muito bem.

 

Falar em carnaval de Porto Alegre, com bom senso, é falar em Mestre Paraquedas. Ele sabe tudo. Fundou algumas escolas, blocos. Das Tribos Carnavalescas, é praticamente um pajé. Para quem nunca ouviu falar, as Tribos Carnavalescas são formações próprias do carnaval de Porto Alegre. Não que elas fossem exatamente tribos de índios, estavam muito mais para blocos afros, mas assim foram batizadas. Suas sedes são chamadas tabas, usam em suas baterias agês (instrumentos tradicionais dos terreiros de batuque), seu ritmo é mais lento, como se fosse um lamento indígena, e no meio do desfile fazem uma parada para encenar a história contada em seu enredo.

Assim como as tribos indígenas brasileiras, hoje apenas duas ainda estão em funcionamento, de um total de cerca de 17 agremiações que já existiram. Os Comanches, primeira tribo carnavalesca de Porto Alegre, surgiu no ano de 1945. O auge destas agremiações foi entre as décadas de 1950 e 60. Perderam espaço com a ascensão televisiva do carnaval do Rio de Janeiro.

 

Paraquedas faz parte do carnaval de Porto Alegre desde a sua primeira infância. Época em que o carnaval não era realizado no sambódromo, mas sim espalhado em coretos pela cidade. Sobre o sambódromo de Porto Alegre, é crítico. Localizado em um dos extremos da cidade, tem claro para si que sua ‘construção’ (em aspas, pois na verdade as únicas instalações fixas que lá existem são os barracões das escolas de samba), cerca de dez anos atrás, foi feita para confinar os negros em um canto, cercados por grades.

 

Mas não é apenas de samba e carnaval o enredo da vida de Paraquedas. É um interessado, consequente interessante, conhecedor da história da África, das ruas, da negritude e da malandragem. Não à toa é um mestre griot. Em África, os griots eram os sábios que contavam histórias, assim as preservando. No Brasil, como uma das recentes ações do Ministério da Cultura, foram concedidos os títulos de ‘mestres griôs’ para entidades que, assim como Paraquedas, se destacam por suas realizações e, através destas e de sua oralidade, são a curva na história de muitas outras pessoas.

 

Como um Mestre Griô, Paraquedas é espelho e forma uma série de jovens. O que está em jogo não é exatamente as condutas que teve, certas ou erradas, mas o que aprendeu com elas. Para nós, contou que recentemente havia apartado uma briga na escola que fica em frente a sua casa. Os dois estudantes, ambos jovens e negros, se batiam para valer. Quando Paraquedas se ‘intrometeu’, alguns o intimidavam, dizendo ‘qual é vovô’. Sua fala, ácida como a vida, foi direta: olha aqui, vocês dois são pretos, vocês querem brigar até se matar, isso não vai ser legal, é tudo o que a sociedade quer. Um morre, o outro vai preso e quem sofre é a família de vocês’. A briga acabou.

 

Fala também sobre quando começaram a querer empurrar para os negros um determinado tipo de música, citando ‘Adeus, Mariana’, de Pedro Raymundo. Eles não se sentiam representados, não gostavam. Mesmo sem entender uma palavra em inglês, se sentiam muito mais íntimos ritmicamente, pela música negra americana. E é aí, nos contou, que começam a fazer o suíngue, mistura do rock’n roll americano com o samba brasileiro. Hoje ritmo de exportação, criado pelas ruas do Partenon.

 

Seus sambas são sanguíneos, emocionantes. É um tótem ambulante, que precisa de reconhecimento ainda em vida. Não falo de dinheiro, ao contrário, já se sente feliz com sua saúde, seu barraco e o amor de um bem querer. Mas os seus sambas... Ancestrais e eternos, mas precisam escorregar pela língua das pessoas em tempo de que ele veja isso, presencie, viva e se emocione. Para que ninguém fale sobre ele por parábolas, contando histórias de um ‘tal mestre que certa vez escreveu um samba que falava uma história bem bonita’.  O papo sobre ele precisa ser reto, como quem fala de Lupicínio ou Túlio Piva. Indiscutível. Que Paraquedas não seja apenas um personagem, mas que seja a própria história de tantos meninos que em frente de suas escolas brigam à espera de um amparo ou palavra.

texto: Lucas Luz

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